Era a primeira segunda-feira de uma semana profissional intensa e desafiadora. Estava assumindo interinamente naqueles próximos 5 dias, as entrevistas AO VIVO, do jornal onde trabalho. Nas pautas já agendadas, só para aquela segunda, já tínhamos ameaças nucleares da Coreia do Norte e julgamento do massacre do Carandiru. Para o resto da semana, debate sobre casamento gay e entrevista sobre vacina de hpv. Era muita coisa pra mim, encarar o vídeo assim, ao vivo, todo dia, tão intensamente.
E logo no primeiro dia daquela semana, a pauta já saiu do script, como sempre é no jornalismo.
Enquanto conversava ao vivo com a repórter que cobria o julgamento do Carandiru, vi com o canto do olho, no televisor que fica no estúdio, uma imagem confusa da linha de chegada de uma corrida.
Enquanto terminava a entrevista, checava no site o que estava acontecendo. "Explosão". "Boston". "Maratona".
Mas numa corrida? E uma corrida de segunda-feira? O que estava acontecendo? Um acidente? Gás?
Mas confirmou-se a pior hipótese: terrorismo. Mortos, feridos graves, cidade paralisada para a caça aos suspeitos, prisões espetaculares. E no fim, medo.
Uma das minhas primeiras entrevistas ao vivo... dá pra notar o nervosismo?
Jamais podia imaginar que algo assim pudesse acontecer numa corrida de rua. Quem já foi, sabe. A corrida é lugar de descontração. Felicidade por completar um desafio. Alegria pela superação de um recorde, confraternização com pessoas que levam o mesmo estilo de vida que você é que têm a mesma paixão: correr.
E a linha de chegada é ainda mais do que isso: é o lugar onde o corredor está no auge da sua endorfina, onde comemora o fim do desafio e em alguns casos recebe o apoio e o carinho de seus amigos e familiares.
Mas Boston é mais. Os corredores fizeram pulsar uma energia incrível de superação. Não, o medo não vai vender aqui na nossa pista, essa foi a mensagem que todos deixaram ali, depois daquela tragédia.
A maratona de Boston 2015 acontece nesta segunda-feira, 20/04, num dia bem gelado pelo que vejo na TV (a corrida está sendo exibida no canal Bandsports). Pra quem não sabe, ela é a principal maratona dos EUA (não é a de NY, não). É a segunda maratona mais antiga da história! A primeira edição foi em 1897.
Essa foto chamou atenção em janeiro de 2015: no meio de uma mega-nevasca, um rapaz saiu à rua para limpar a neve que cobria a linha de chegada da maratona - tudo porque a Maratona de Boston exige respeito.
Estar em Boston, correr em Boston é para poucos guerreiros e guerreiras. É para os fortes. Por isso o slogan que persistirá.
Culpa em parte de uma infância e adolescência de baixa auto-estima. O quadro nunca foi grave. Nunca tive problemas sérios de peso, mas quando se tem 16 anos, qualquer celulite e estria parecem ser o atestado de que você nunca será uma pessoa bonita e/ou interessante no quesito visual.
E esse tipo de pensamento se infiltra em outras áreas da sua personalidade, família, relacionamentos, carreira, estética.
Ele faz parte de um processo que sempre me levou para o excesso de modéstia e humildade. Eu sei das minhas qualidades, sei das minhas conquistas, mas comemorá-las publicamente, até para efeito de um saudável marketing pessoal, nunca foi meu forte.
Mas conquistas existem, e merecem ser celebradas.
Aquela menina de 16 anos, que chorava no quarto por causa de uma estria, não imaginava que estaria 17 anos depois casada, com uma família linda, uma carreira e 21 km no currículo de corredora. (Até porque aquela menina nem pensava muito nessa história de corrida).
Mas enfim, Fast Foward, 2015, Duas filhas depois e cá estou eu correndo. Mais saudável e, felizmente, menos modesta. Pesando menos do que na adolescência correndo de tênis e sainha (!) e... olha que ironia, vestindo uma regata (de ótima qualidade) que eu comprei e tinha vergonha de usar aos 16 anos.
Hoje o Facebook me lembrou de um post que fiz em 2013 comemorando a volta ao meu peso anterior à minha primeira gravidez.
Fiz uma conta.
Foram 2 anos e 3 meses para "recuperar" o meu corpo depois da minha primeira filha.
Com a segunda, fiz diferente.
E o resultado veio exatamente 9 meses depois. O mesmo peso de antes.
Nos dois casos engordei cerca de 21 kg. No final das duas gravidezes até parei de me pesar porque fiquei chateada por engordar tanto.
Mas foi um momento. Agora estou em outro. Bem mais magro.
Meu marido disse que na segunda vez fui mais "radical". Acho que ele tem razão. Mas não foi só isso, não.
Da primeira vez, tudo era culpa. Culpa de errar com a bebê. Culpa de ficar longe dela para ir pra academia. Culpa de me colocar em primeiro lugar em certos momentos. Culpa por tudo.
E culpa engorda. Ou, nesse caso, impede de emagrecer.
Da segunda vez, decidi me punir menos. Mesmo com duas crianças, me permiti errar. Nem todo resfriado delas é culpa minha. E elas não precisam ficar grudadas em mim durante 100% do meu tempo livre para eu provar a elas que as amo.
Então engoli menos culpa.
E também corri mais. Muito mais do que já tinha corrido na vida.
Estipulei a meta dos 21 km. Um pouco para perder peso, mas principalmente por gostar de correr. Eu queria correr. Queria me dedicar à corrida aquele meu tempo que seria só pra mim, esse era o foco.
Não diria que foi um radicalismo. Até porque não treinava tantas vezes na semana quanto deveria para uma prova de 21 km. Eram 3 vezes e olhe lá. Mas tinham os longos, de 12, 13, 15 km. Aqueles em que você já está cansada no km 3 e não tem desculpa, tem que continuar. Tem que se empurrar. Empurra e vai.
E foi. 21kg a menos - correndo e engolindo menos culpa.
Ninguém precisa se cobrar de perder peso rapidamente após a gravidez. Especialmente depois da primeira, quando você tem que lidar com tanta novidade e com uma outra você.
Mas só considere que com menos culpa e mais corrida, esse período pós-filho pode se tornar bem mais agradável. E com um resultado mais saudável.
Sou uma pessoa que se motiva com projetos de médio e longo prazo: minhas próximas férias, a festa de aniversário da minha filha, a compra de um carro. E sempre que concluo um, bate uma pontinha de tristeza porque aquela espera, aquela preparação acabou.
Depois de um ano, corri minha primeira meia maratona na Disney, a Princess Half Marathon. Fio uma das coisas mais legais que eu já fiz por mim. Já faz mais de um mês, saí de férias, voltei a trabalhar e ainda não recuperei o ritmo.
Em parte de propósito. Isso porque eu decidi que depois dos 21 km, eu queria desacelerar. Queria mais tempo para descansar, para cuidar da casa, das meninas, do marido, e até do cabelo, sabe? Tomei essa decisão num dia que voltei do longão. Estava feliz, com endorfina rolando solta. Mas ao mesmo tempo cansada e, pra piorar, ferida. Coloquei os documentos dentro da calça para correr e fiz um machucado horrível. Além disso, estava com assaduras embaixo dos seios e uma unha do pé totalmente preta, quase caindo... consequências da corrida, faz parte.
Mas aí me vi machucada e pensei: vamos diminuir isso aí. É pra você se sentir bem e bonita, e não assada e ferida.
Refleti muito e pensei: vamos mudar um pouco. Reduza a carga da corrida e se dedique mais à musculação. Eu estou magra, mas muito mole. E sem pegar peso isso não vai mudar. Para não se cansar tanto, nem precisar dedicar tantos dias aos treinos, escolha outra meta: que tal 10 km em menos de uma hora. É factível e não vai tomar tanto tempo e precisar de tanta logística.
Então ficamos assim: desacelerar pra curtir outros aspectos da vida, nem que seja um tempinho pra ir na manicure de vez em quando.
Como lidar com essa paquitagem, com esse kit pink, com esse percurso lindo, com tantos elogios da mulherada que foi no ano passado, com o desafio de fazer 21 km correndo "de verdade" (pq na Princess Half era parar a cada 15 minutos pra tirar 500 mil fotos), com o preço camarada da inscrição, com o fato de que há tempo hábil para treinar com calma?
Desde que comecei a correr, corro muito mais na esteira do que na rua. Pela praticidade, por ser mais perto, por ser mais rápido. Claro que correr fora é muito mais legal, ventinho no rosto, menos tédio. Mas a esteira é nossa amiga. Não curto quando rola discriminação com ela, sabe?
Dá até pra dividir
E pra celebrar essa minha querida, separei algumas inspirações:
Primeiro aumenta o som pra música mais cooooooool de 2015, na esteira:
Eu quero ouvir a mesma música que ele:
Sincronia é tudo.
É muito fácil a gente se distrair. Mas ninguém foi tão ágil para disfarçar:
E pra terminar: fails, muitos fails. Só pra deixar claro que VOCÊ NÃO PODE AGIR COMO UM IDIOTA COM ELA!
O que a gente quer é que a corrida torne as pessoas melhores, ajude a deixá-las mais tranquilas para resolver seus problemas, que a corrida seja um momento de reflexão e também um modo para promover a saúde e a auto-estima do corredor.
Mas nem sempre é assim. Nem todo corredor é feliz, saudável ou são.
Fiquei muito triste quando começaram a aparecer as fotos de Andreas Lubitz em suas corridas.
Porque corredor, quando vê outra pessoa correndo, se identifica um pouco. Se sente do mesmo grupo. Imagina os desafios que aquela pessoa enfrenta todos os dias para, assim como você, poder correr.
Mas Andreas Lubitz devia ser um corredor infeliz. Embora aparecesse bem nas fotos de corrida que agora estão em todo lugar na imprensa.
Para os jornalistas, foi o jeito mais fácil de encontrar fotos dele, imagino. Quem faz corrida de rua sabe que você é clicado e fotografado. É fácil te encontrar com uma busca simples em alguns sites especializados.
Andreas Lubitz era corredor e era rápido. Corria meias. Gostava da meia-maratona de Frankfurt, promovida pela companhia aérea Lufthansa, dona da companhia aérea Germanwings.
Ele era também o copiloto suspeito de derrubar um avião da Germanwings na França, provocando a morte de 150 pessoas.
A noite anterior à meia maratona das princesas foi estressante. Estava dormindo muito pouco nos últimos dias, fui ao parque Animal Kingdom na véspera, tive que preparar a fantasia assim que chegamos do parque em casa e pouco antes de dormir. Mas no fim, mesmo com muito sono, deu tudo certo para acordar e chegar à prova. O marido me deixou na área de "drop off" do Epcot, onde foi a concentração.
Cheguei lá, achei tudo bonito, calmo, organizado. Estava escuro ainda mas todas chegavam animadas com suas fantasias. Tirei foto com a Rapunzel e fiquei ali achando que estava tudo meio vazio. E estava mesmo porque A LARGADA NÃO ERA ALI!
Aquele lugar, na verdade, era apenas o local de recepção e o guarda-volumes. A largada era passando as tendas do guarda-volumes, e depois disso, uma caminhada de uns 15 minutos até os corrals. O meu era o "corral M". Fui muito vacilona mas consegui chegar lá a tempo. O primeiro corral largou as 5:30. Mas a minha largada foi só as 6:22, com direito a karaokê com a música do Journey.
Os animadores da largada já nem sabiam o que falar pra entreter aquela multidão de gente, mas achei ótimo largar cantando Don't Stop Believing. Por mais clichê que seja, foi realmente inspirador. E cada largada de cada corral tinha seu próprio estouro de fogos. Emocionante.
Corri ouvindo música mas de vez em quando tirava o fone para prestar atenção na galera e nas atrações do percurso. Levei a câmera fotográfica e decidi fotografar cada placa de milha. Afinal, era uma experiência única que precisava de registros, né.
Além das placas, personagens foram posicionados em vários trechos para posar com as corredoras. Mas eu só peguei fila para a Branca de Neve (obviamente), a Mary Poppins e o Woody, do Toy Story.
O percurso saía do estacionamento do Epcot, pegava a estrada para o Magic Kingdom, entrava nele, passava pela Main Street, Tomorrowland, por dentro do Castelo da Cinderela e saía do parque pela lateral esquerda. Depois era mais estrada, algumas bem estreitas perto de hotéis da Disney e por fim, voltávamos ao Epcot, passávamos ao lado da Spaceship Earth (aquele globo prateado) e voltávamos para o estacionamento onde era a linha de chegada.
O começo do percurso transcorreu bem rápido. Quando passamos pela entrada do estacionamento do Magic Kingdom eu acelerei porque estava morrendo de vontade de entrar lá! Quero ver logo o Castelo da Cinderela e sentir a emoção quase infantil de estar na Disney!
Lá, havia muita gente torcendo e o tempo todo músicas dos filmes tocando. Toda uma atmosfera pra criar um momento mágico. Realmente vontade de chorar. Corri devagar pela Main Street e quando vi o Castelo desacelerei de vez para tirar muitas fotos.
Passando a entrada e o Castelo, viramos à direita e seguimos pela Tomorrowland. Depois demos a volta para passar por dentro do Castelo. E ali uma grata surpresa para corredoras e mamães de princesas: Elsa, Anna e Kristoff (do Frozen) estavam na sacada para nos recepcionar.
Ao passar pelo Castelo, mais torcida e muitos fotógrafos para registrar a galera na frente daquela estrutura que a gente tanto imaginou nos sonhos.
O resto da corrida não foi nada tedioso, graças a Deus. Muitas atrações, personagens, djs fazendo piadinhas (relaxem, vcs não estão nem na metade!), placas de milhas para tirar fotos, torcida, etc. Tudo ajudou a completar o que parecia ser quase inalcançável: 21 km ou 13,1 milhas.
E o mais incrível é que tinha gente ali de todas as idades e "formatos". Muitas mulheres andavam, claro. Muitas também estavam claramente acima do peso, outras tinham alguma deficiência. Mas a energia era tanta que todas se sentiam empurradas e felizes por estar ali.
Os postos de hidratação e ajuda eram outro show! Muitos. Com Powerade para tomar (era ruim, mas tudo bem) e água. Tudo oferecido em copos, numa quantidade certa para evitar que você desperdiçasse ou jogasse no chão. Muitos lixos para jogar os copos - daí o percurso incrivelmente limpo. Ofereceram também carbogel, barrinha de proteína e até um gel anti-frio para passar nas pernas que eu não peguei porque a temperatura estava absolutamente ideal.
Eu não quis caminhar porque pus na cabeça que não queria fazer a prova em mais de 3 horas. Até porque a gente para muito para tirar fotos e eu queria compensar esse tempo. Deu certo. Fiz em 2h59min! E posso dizer que não caminhei. Existe um tempo limite de 16 min/ milha. Quem passa disso é retirado da prova :(
A chegada foi animada. Tava tocando Shake it Off na hora que terminei. Ganhei minha medalha, peguei a sacolinhas com alguns presentes (capa antifrio, etc). Me jogaram pó de pirilimpimpim (purpurina), mais foto do fotógrafo oficial, kit com comidinhas, banana e mais powerade e milhares de pessoas na área de encontro familiar (o que me levou ao erro de não conseguir encontrar o marido e ter que voltar pra casa de táxi - fica a dica pra combinar CERTINHO - o ponto de encontro porque o local é muito grande e tem muita gente. Nesse ano apenas 24 mil pessoas).
Tirei muitas fotos porque, né? Quase um ano de expectativa e tanta coisa bonitinha! Perdoem o excesso de selfies ;)
Só sei que sai dessa experiência com sensação de dever cumprido por todos esses meses e com uma recompensa incrível: uma viagem de sonhos e uma corrida de sonhos. Li uma vez um livro sobre alguns conceitos Disney de entretenimento: eles querem que você volte. De qualquer jeito. E é claro que eu saí de lá com vontade de voltar e correr tudo de novo correr outra. Correr de noite. Correr todas. Sempre haverá um motivo para voltar.
Quem quiser saber sobre as corridas da Disney, é só ir no site rundisney.com. Tem corrida nos parques da Flórida, no da Califórnia, e também em Castaway Cay, a ilha da Disney nas Bahamas para quem faz os cruzeiros Disney (já fiz e super recomendo).